segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O surgimento da valorização da mulher

É de conhecimento de todos que, em um primeiro momento, a mulher não foi valorizada e sempre esteve abaixo dos homens. Isso posto, como podemos explicar a valorização feminina nas cantigas de amor?


As explicações para tal inferioridade perpassam diversas questões, entre elas a força física feminina ser inferior à masculina. Assim, trabalhos pesados, guerras e caças eram feitos mais eficientemente pelos homens. Além disso, neste período a mulher passa a ser demonizada ou até mesmo considerada pior que o demônio. Segundo Krammer e Sprenger, é a mulher que dá ao demônio o poder de possuir a alma humana através do sexo. Dessa maneira, quando ela tem intimidade com o demônio, torna-se capaz de desencadear todos os males do mundo. Havia também, nessa época, a famosa "caça às bruxas": "diz que a mulher é mais carnal que o homem e, por isso leva o homem a pecar, justificando que a primeira mulher já 'veio com defeito de fabricação' e por isso é um animal imperfeito. As mulheres eram torturadas das mais variadas formas para confessarem a prática de bruxaria, e, se ainda assim não confessassem, os juízes poderiam trazer outros instrumentos de tortura, que poderia levar até três dias". 


Paralelamente a isso, crescia o culto à Mariologia (o culto da Virgem Maria) na Idade Média. Dessa forma, o cristianismo busca modificar o papel da mulher através de Maria. Suprimia-se, portanto, a mulher “pecadora” e exaltava-se a virgem, mãe de Jesus, concebida sem pecado. A pureza estava em ser virgem. O sexo é pecado; a mulher é a fonte do pecado. Nesse contexto, "Jesus, ao contrário dos rabinos, acaba com o entendimento de que o desejo era inevitável. Ele não adverte os seus discípulos contra o olhar para uma mulher, mas alerta-os de fazê-lo com impureza. As mulheres devem ser reconhecidas como seres humanos iguais aos homens e não como simples objetos dos desejos dos homens. Uma vez reconhecido que as mulheres podem se relacionar de outras maneiras além do contato sexual e reconhecendo que a impureza não é apenas pecado, mas é um pecado deliberado, um ato de vontade como o adultério, então não há mais necessidade de evitar o seu contato social. A partir disso, Jesus e seus discípulos tratam as mulheres com dignidade elevando o status que elas tinham na sociedade da época." 


Essas duas ideias antagônicas são muito bem representadas pelas cantigas de amor, uma vez que há a presença do amor cordial, da mulher virgem e sem contato amoroso. Entretanto, podemos notar, ainda, a presença do desejo sexual muitas vezes disfarçado por construções ambíguas. 


Referências:
DURÃES, J. S.: Mulher, Sociedade e Religião. Disponível em: <http://www2.pucpr.br/reol/index.php/9CT?dd1=2763&dd99=view> Acesso 26 de setembro de 2016.

BARRIENTOS-PARRA, J.:A CONTRIBUIÇÃO DO CRISTIANISMO NA FORMAÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS HUMANOSDisponível em: 
<http://www.fclar.unesp.br/Home/Departamentos/AdministracaoPublica/RevistaTemasdeAdministracaoPublica/03JORGE.pdf> Acesso 26 de setembro de 2016*Aulas ministradas pelo professor Fernando Fiorese na disciplina "Estudos Literários II" na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

Como conhecemos produções tão antigas?

Quando falamos sobre cantigas milenares que antecedem tranquilamente muitas crenças e até mesmo religiões, uma questão que pondera facilmente é: como temos acesso à registros tão antigos que se ancoravam em uma tradição oral? O que nos possibilitou conhecer esses escritos datados de uma época tão remota? 

Ao trazer para o âmbito do Trovadorismo Medieval, vale destacar uma descrição feita por Massaud Moisés, hoje professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP),  acerca do que eram as consideradas cantigas: "durante a Idade Média, a cantiga designava a forma poética vernácula (...) de onde pode chamar-se ainda de cantar ou canção. Fundia a letra e o som; o poema, coordenado à pauta musical, destinava-se ao canto e à instrumentação". Assim, ao se analisar a estruturação aliada à forma com a qual era disseminada, torna-se evidente que a permanência e a conservação de parte dessas obras estão estritamente relacionadas à coalizão música e poesia. As cantigas, estruturadas a partir dessa junção, eram mais facilmente memorizadas não apenas pelos trovadores, jograis e segréis (cantores responsáveis pela circulação das cantigas), mas, também, pelos ouvintes.

Ademais, é válido analisar que, a partir do que foi abordado, essas produções literárias realizavam, portanto, duas funções clássicas da Literatura: docere (instruir/ensinar) e delectare (deleitar/causar emoção). Destarte, configuram-se com a função de transmitir valores, conceitos e ideias (sendo importante lembrar que esses eram, em sua maioria, produzidos pela elite) e de fazê-los se conservar na teia social. 

Ilustração da forma como se compartilhava
as cantigas na época Medieval

Unindo todos esses fatores analisados, chega-se à resposta do questionamento inicial desse texto no que diz respeito às cantigas medievais. A transmissão a partir da música foi um ponto crucial para que hoje possamos dizer que conhecemos cantigas ainda distintas entre si, mas igualmente belas e valiosas. 


Referências: 
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1997. 
<http://fcsh.unl.pt/media/reportagens/cantigas-medievais-galego-portuguesas> Acesso em: 07 set 2016
*Aulas ministradas pelo professor Fernando Fiorese na disciplina "Estudos Literários II" na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

Eros x Caritas: uma tensão com origem medieval

Ao se falar do amor presente, entre outros locais, nas cantinas trovadorescas, encontra-se tipos distintos: o Eros e o Caritas. Mas o que os definem? Como eles se diferenciam? E de que forma isso se evidencia nas cantigas?

Primeiramente, comecemos com a explicação do que são. O Eros é originado a partir do pensamento platônico e lembra o amor romântico — aquele que talvez seja o mais próximo deste conhecido atualmente. Este tipo de amor está ligado à falta, ou seja, ao sofrimento; é aquele amor que busca ser alcançado. Por outro lado, o amor Caritas, também chamado de ágape, é um amor que está atrelado ao bem do outro, muito próximo do humanismo cristão. Assim, gostar de alguém é amar esta pessoa incondicionalmente e só lhe fazer o bem. O amado nada mais é, para o amante, que alguém a quem ele deseja fazer o bem.

Vale ainda analisar que o Eros muito está associado ao amor instintivo físico, estando ao lado do prazer corpóreo visto como natural. Atrelado ao "pathos" (emoção), esse tipo de amor se revela em oposição ao amor espiritual e cristão evidenciado no Caritas, atrelado, por sua vez, ao "logos" (razão). Este está intrinsecamente ligado ao amor cortês de distância que na maioria das vezes não se concretiza. Nas cantigas de amor, por exemplo, em que se encontra um trovador abaixo da sua senhor, o amor se mostra inatingível e, destarte, há a realização espiritual como contentamento longínquo.

É de conhecimento de todos que na história da humanidade há sempre um choque entre a tradição e os novos valores que estão sendo instaurados. Assim, não é de se assustar que muitas batalhas ideológicas tenham sido travadas por anos, décadas e até mesmo séculos. O mesmo ocorre aqui: esses dois tipos de amor se expressam de maneiras distintas e muitas vezes são colocados um frente ao outro. A depender da época e do autor, valoriza-se mais um do que o outro —o que apenas reforça como os dois são importante na sociedade.


Referências Bibliográficas: 
*Aulas ministradas pelo professor Fernando Fiorese na matéria Estudos Literários II, na UFJF
OLTRAMARI, Leandro Castro. Amor e conjugalidade na contemporaneidade: uma revisão de Literatura. Maringá, v. 14, n. 4, p. 669-677, out./dez. 2009.

Métrica de um poema? Como se faz?

Ao se estudar poemas, depara-se claramente com a escansão métrica como um importante quesito de análise. Entretanto, como se faz a contagem de sílabas métricas? Ela se aproxima da forma com a qual fazemos a divisão de sílabas gramaticais?

Primeiramente é preciso entender que a contagem de sílabas da gramática se difere da contagem literária/poética. Para essa se estabelecer essa última, feita sobre o som do poema, é necessário seguir basicamente duas regras. São elas:

  1. Conta-se a sílaba de cada verso até a última sílaba tônica da mesma linha. Aqui, encontra-se uma evidencia de que a poesia muito tem a ver com a musica e com o som, já que conta-se até o último som forte presente.
  2. Unir sílabas quando houver som fraco e forte nessa ordem ou na ordem inversa. 

Ao seguir tais regras, é possível estabelecer a escansão métrica de qualquer poema. A partir disso, torna-se possível analisar se existe ou não uma regularidade e se isso é algum recurso com um propósito maior para com tema e a abordagem.

A fim de ilustrar de forma mais efetiva essas regras, disponibilizamos um rápido vídeo encontrado no youtube que ilustra a divisão métrica realizada em três versos diferentes. Como resultado, são encontrados três dos mais famosos tipos de versos: o decassílabo, o chamado medida nova e medida velha. 



Referências:
*Aulas ministradas pelo professor Fernando Fiorese na matéria Estudos Literários II, na UFJF
<https://www.youtube.com/watch?v=B0093ZJbsCQ> Acesso: 24 set. 2016



domingo, 25 de setembro de 2016




Cantiga de amor de Bernal de Bonaval¹


A dona que eu am'e tenho por senhor 

amostrade-mi-a, *Deus, se vos en² prazer for³, 

senom dade-mi a morte. 



A que tenh'eu por lume destes olhos meus 

e por que choram sempr', amostrade-mi-a, *Deus, 

senom dade-mi a morte. 



Essa que vós fezestes melhor parecer 

de quantas sei, ai, Deus!, fazede-mi-a veer, 

senom dade-mi a morte. 



Ai *Deus! que mi a fezestes mais ca mim amar

mostrade-mi-a, u possa com ela falar, 

senom dade-mi a morte.


Vocabulário:
¹ Segrel galego, século XIII.
² en= disso, disto
³ seer prazer: agradar a
mais do que a mim mesmo
u=onde


A cantiga de amor apresentada acima tem tendência paralelística, contém 4 cobras singulares de 3 palavras cada e um refrão monástico. Sendo uma cantiga de amor, há a presença da coita amorosa — o sofrimento do amado por não poder ver sua amada. *Deus aparece como vocativo movimentado-se ao longo da cantiga. Inicialmente, aparece no meio do primeiro verso da primeira estrofe, depois no final do segundo verso da segunda estrofe e por último, no início do primeiro verso da quarta estrofe. Na última ocorrência, aparece tendo uma posição privilegiada, o que evidencia o aumento da emoção e do desespero do eu lírico. 

Na primeira estrofe, o eu lírico pede à Deus que permita que a amada se mostre trazendo em foco o sentido da visão, que é parte do amor espiritual — distante/não há toque). Completa dizendo que se Deus não permitir que ele a veja, o eu lírico prefere a morte. Porém, já na terceira estrofe, o amante pede à Deus que interfira na sua visão e na quarta solicita falar com a amada. Assim, passa para o sentido da audição, que apresenta maior proximidade física do que a visão. Através dessa mudança, percebe-se a passagem de um "amour de loin" (amor à distância) caminhando para um desejo de realização desse amor. Para representar essa tensão/emoção do eu lírico, tem-se a variação entre rimas graves e agudas.

Rimas graves: rimas entre palavras paroxítonas
Rimas agudas: rimas entre palavras oxítonas

Referências bibliográficas:
*Aulas ministradas pelo professor Fernando Fiorese na matéria Estudos Literários II, na UFJF
<http://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?cdaut=22&pv=sim> Acesso em: 19/09/2016


sábado, 24 de setembro de 2016

Um pouco mais sobre as cantigas

       As cantigas do Trovadorismo Medieval são divididas em cobras (antiga denominação para estrofe) que são, por sua vez, segmentadas de acordo com seu estilo de rima. Assim, podem ser:


  • Cobras Singulares: cada estrofe apresenta rima própria, porém com o mesmo esquema rimático.


Exemplo:
    "A tal estado mi adusse, senhor,
   o vosso bem e vosso parecer
   que nom vejo a mi nem d'al prazer
   nem veerei já, enquant'eu vivo for
       u nom vir vós que eu por meu mal vi.

   E queria mia mort'e e nom mi vem,
   senhor, porque tamanh'é o meu mal
   que nom vejo prazer de mim nem d'al
   nem veerei já, esto creede bem,
      u nom vir vós que eu por meu mal vi."



  • Cobras Uníssonas: todas as estrofes têm o mesmo esquema rimático e ainda uma mesma série de rima — o que quer dizer que as terminações que causam as rimas são as mesmas em todas as estrofes.

Exemplo:
            "Senhor, que de grad'hoj'eu querria,
             se a Deus e a vós aprouguesse,
         que, u vós estades, estevesse
             convosc'e por esto me terria
                    por tam bem andante
                    que por rei nem ifante
                    des ali adeante
                    nom me cambiaria.

                E sabendo que vos prazeria
                que, u vós morássedes, morasse
                e que vos eu viss'e vos falasse,
                terria-me, senhor, todavia
                    por tam bem andante
                    que por rei nem ifante
                    des ali adeante
                   nom me cambiaria.
 
                Ca, senhor, em gram bem viveria,
                se u vós vivêssedes, vivesse
e sol que de vós est'entendesse,
terria-me, e razom faria,
                    por tam bem andante
                   que per rei nem ifante
                   des ali adeante
                   nom me cambiaria."


  • Cobras Doblas: as rimas dessa modalidade são repetidas do mesmo modo cada duas estrofes. 
Exemplo:
           "Vaiamos, irmana, vaiamos dormir
            nas ribas do lago u eu andar vi
            a las aves meu amigo.

      Vaiamos, irmana, vaiamos folgar
      nas ribas do lago u eu vi andar
            a las aves meu amigo.

      Nas ribas do lago u eu andar vi
      seu arco na mãao as aves ferir,
            a las aves meu amigo.

      Nas ribas do lago u eu vi andar,
      seu arco na mãao a las aves tirar,
            a las aves meu amigo.

      Seu arco na mano as aves ferir
      e las que cantavam leixa-las guarir,
            a las aves meu amigo.

      Seu arco na mano a las aves tirar
      e las que cantavam non'as quer matar
            a las aves meu amigo."
   

Há também outras formas de denominar as cantigas com base na sua métrica:


  • Cantiga de Descordo - Cantiga metricamente irregular. Suas estrofes não seguem um padrão.



  • Cantiga de Refrão - São cantigas que possuem a repetição de um verso no final de casa estrofe (facilitando, assim, a memorização). 



  • Cantiga de Mestria - Apresenta características contrárias às da cantiga de refrão, pois não possui a repetição de nenhum verso.



  • Cantiga de Atafinda - As estrofes são encadeadas até o fim da composição: o final do verso ou da estrofe liga-se ao seguinte, sem que haja interrupção no ritmo.



  • Cantigas de Refrão Paralelísticas - As cantigas de refrão paralelísticas possuem necessariamente um refrão. Mas nesse estilo de cantiga a rima se repete igualmente em cada estrofre e o último verso é idêntico em todas as cobras.



Finalmente, nas cantigas trovadorescas existem duas formas de chamar atenção para a ideia principal de tal cantiga influenciando no ritmo. Sendo elas:

Dobre - Restringe-se a repetir a mesma palavra em uma cobra.

Mordobre - Repetição de uma mesma palavra em uma única cobra, porém essa palavra estará em classes gramaticais e tempos verbais distintos.


Referências:
*Aulas ministradas pelo professor Fernando Fiorese na matéria Estudos Literários II, na UFJF

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

As cantigas e suas divisões


Nas cortes dos senhores feudais, centros de atividade artística da Europa medieval, se exibiam os jograis: recitadores, cantores e músicos ambulantes que eram contratados pelo senhor para divertir a corte. As cantigas apresentadas pelos jograis eram compostas, quase sempre, por nobres que se denominavam trovadores — praticavam a arte de trovar. Essas cantigas podem ser divididas de acordo com seu conteúdo temático ou sua organização estrófica:

  • De acordo com a temática: 

Cantigas líricas: 
Cantigas de amor: As cantigas de amor do Trovadorismo desenvolvem um mesmo tema: o sofrimento provocado pelo amor não correspondido, em que o homem (vassalo) idealiza sua dama, louvando-a e enaltecendo-a;

Cantigas de amigo: As cantigas de amigo apresentam um eu lírico feminino, representando a voz de uma mulher (amiga) que manifesta a saudade pela ausência do amigo (namorado ou amante). É importante ressaltar que o trovador que compõe a cantiga é um homem, sendo assim, a adoção de um eu lírico feminino acaba por apresentar aquilo que os compositores consideravam a visão feminina da saudade e do amor;


Cantigas Satíricas:
Cantigas de escárnio e maldizer: As cantigas de caráter satírico apresentavam críticas ao comportamento social, pessoas, hábitos, instituições e difamavam alguns nobres.

  • De acordo com a organização estrófica: 
Cantigas de refrão: Mais comuns nas cantigas galego-portuguesas, apresentam sempre uma estrofe que se repete, o que facilitava a memorização;

Cantigas de maestria: Mais comuns nas cantigas provençais e não apresentavam refrães;

Cantigas de atafinda: Cantiga na qual o final de um verso ou estrofe liga-se ao seguinte sem interrupção de ritmo;

Cantiga de refrão paralelística: Cantiga em que os versos se repetem numa sequencia determinada, sem a variação do refrão.


É importante saber:
Cobra: termo utilizado para designar estrofe
Cobra singular: caracterizada por conter uma estrofe com séries de rimas diferentes (embora com o mesmo esquema rimático).


Referências:
*Aulas ministradas pelo professor Fernando Fiorese na matéria Estudos Literários II, na UFJF
http://cantigas.fcsh.unl.pt/sobreascantigas.asp
ABAURRE, M.L; PONTARA, M. Literatura: tempos, leitores e leituras. 2.e.d São Paulo: Moderna, 2010.